A conta chegou na França

Não é papo de botequim. Terminada a quarentena radical na França a volta ao trabalho se mostra complicada. As empresas foram mantidas em uma espécie de coma artificial, induzida, e agora com o mundo tentando voltar ao normal a realidade traz a dolorosa conta. Um paciente que sai de coma não sai correndo, sai apoiado, amparado, por ter poucas forças. A semelhança com a economia é enorme. As empresas estão debilitadas e com o caixa zerado. O paciente “vinho francês” fazia parte do grupo de risco. Estava cheio de comorbidades, palavra bem em voga no momento.

Em 2019 houve importante perda de mercado na China, onde a França exercia ampla liderança, para o vinho australiano e chileno, beneficiados pelo acordo de livre comércio destes países com o Império do Meio. A sobretaxa americana ao vinho francês, causada pela derrota inicial da Airbus na briga com a Boeing. Somou-se a queda do consumo francês nos supermercados, uma nova lei limitou as promoções a 33% de desconto. De repente o vírus chinês aparece. Todos em casa. Bares e restaurantes fechados. Comércio travado. Aqui as lojas de vinho ficaram abertas, mas faltou cliente.

O Lido de Paris é o maior consumidor individual de Champagne com 240.000 garrafas vendidas por ano. (imagem divulgação)

O produtor de vinho, especialmente do bom vinho, aquele que tem mercado nas boas mesas, sofre um violento impacto ao não poder vender para restaurantes e bares. O turismo beijou a lona e o Champagne foi junto. Paris é a maior praça mundial de consumo de Champagne. Para entender veja que o Lido de Paris, a famosa casa de espetáculos, maior vendedor individual com 240 mil garrafas por ano, está fechado. Por baixo são 80 mil garrafas a menos. Eventos cancelados. Festival de Cannes cancelado. A Campanha de Primeurs de Bordeaux, sem sua tradicional degustação e festas, teve que se contentar em enviar amostras aos quatro cantos do mundo e degustações locais sem os clientes internacionais. Será que vai ter venda condizente?

O quadro está pintado e as tintas são negras. A expectativa de desemprego no setor é real e significativa. Se deu para pagar os salários durante o confinamento graças a ajuda do governo francês a falta de visibilidade impõe soluções duras para evitar fechar as portas. Muitos pedidos de falência e concordata, recuperação judicial, estão prontos. A manchete diário francês  Le Figaro de hoje assusta: “A França se prepara para uma onda de demissões e falências sem precedentes”. Em março, mesmo com as diversas ajudas governamentais, houve um aumento de 7,1% do desemprego. Foi só o começo. Maio será bem pior.

Do outro lado do balcão há a necessidade urgente de vender o vinho que está nas adegas. No vinhedo as videiras em floração levam ao planejamento da colheita que acontecerá em agosto e setembro, em condições adversas. A nova safra pede espaço nos tanques e barris. Tic-tac, tic-tac. A queda de braço entre os que comercializam o vinho e os produtores tende a favorecer o negociante, mesmo com a destilação de 200 milhões de litros financiadas pelo governo. Oportunidades começam a surgir. Se por um lado é duro, pelo outro permite pagar as contas. Para países como o Brasil que sofrem com o câmbio alto a notícia ajuda. Nos últimos quatro dias o Real subiu. Santé.

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